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  • Macron propõe “New Deal” económico para África
    O chefe de Estado francês discursou esta manhã no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, onde apresentou as prioridades da presidência semestral francesa do Conselho da União Europeia. Emmanuel Macron sublinhou a urgência de "uma nova ordem" na Europa com a Nato face à Rússia e apresentou uma nova agenda para o continente africano.  Carlos Gaspar, director do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, reconhece que há muito trabalho a fazer no continente. RFI: O Presidente Emmanuel Macron quer inscrever a protecção ambiental e direito ao aborto na declaração dos direitos fundamentais da União Europeia. Que importância tem esta iniciativa? Carlos Gaspar: A revisão da declaração dos direitos fundamentais europeus para reforçar as referências ao ambiente e também ao aborto não é evidente, uma vez que não haverá um consenso entre as três principais forças no Parlamento Europeu nessa matéria ou se a questão continua a ser muito dividida, designadamente nas relações entre socialistas e liberais, por um lado, e os democratas cristãos por outro lado. Mas é uma proposta forte”. Pode ser vista como uma mensagem para a nova presidente do Parlamento Europeu, a maltesa Roberta Metsola, ela que é mais conservadora e tem posições firmes anti-aborto. Uma vez que Malta que é o último país da União Europeia onde a interrupção da gravidez continua a ser completamente ilegal? Suponho que é mais uma coincidência que tem a ver com as circunstâncias, a morte súbita do presidente David Sassoli, do que propriamente com uma resposta à eleição da nova presidente, que de resto estava prevista. Uma das iniciativas da presidência francesa passa pelo enquadramento do salário mínimo, para acabar com as desigualdades. Até que ponto esse enquadramento é possível, quando existe uma europa a duas velocidades? É impossível. A duas velocidades não, a muitas velocidades. Isso tem a ver com o projecto de convergência a prazo, mas é totalmente impossível falar de uma convergência efectiva do salário mínimo europeu, hoje em dia. Qualquer pessoa que conheça os números sabe que isso é completamente impossível. Até porque vários países do norte da Europa são contra esta medida … Não, é impossível do ponto de vista económico. As disparidades, as assimetrias são excessivamente grandes. Não faz sentido imaginar que o salário mínimo da Bulgária possa ser o salário mínimo da Suécia. A França quer uma reforma do Espaço Schengen para combater a imigração ilegal. Fala em antecipar as situações, numa força intergovernamental de acção rápida na luta contra as redes de trafico ilegal. Como é que poderá ser implementada essa reforma? A questão das fronteiras é crucial, do ponto de vista da segurança europeia. A União Europeia e a Nato devem assumir que têm fronteiras definitivas e que a UE não vai continuar a expandir-se definitivamente em direcção à Turquia e ao espaço pós-soviético. É preciso consolidar as fronteiras europeias, a crise entre a fronteira da Polónia e da Bielorrússia foi um bom exemplo disso. A questão da migração no mediterrânio também. É indispensável haver um reforço das fronteiras externas. O Presidente Macron falou de uma força intergovernamental de intervenção rápida, mas não definiu a sua composição, nem a sua competência. Neste momento é crucial reforçar-se o Frontex e avançar no sentido de definir as fronteiras definitivas da União Europeia, as fronteiras externas, e o espaço pós-soviético. O chefe de Estado francês voltou a defender que a Europa precisa de retomar o diálogo com a Rússia, referindo que este deve ser um diálogo franco e exigente diante da manipulação e da interferência. Esse diálogo será possível? Esse diálogo existe  desde a aprovação da Carta de Paris e da criação da Organização de Segurança e Cooperação Europeia. O Presidente Macron foi mais longe e disse que a presidência estava a preparar uma proposta europeia sobre a ordem estratégica e a ordem de segurança continental para propor à Rússia. Não é um bom momento para apresentar essa proposta. Essa iniciativa tem com certeza razão de ser, mas não é no momento em que estão 100 000 soldados das forças russas estacionados na fronteira com a Ucrânia que se deve fazer essa proposta. Há uma linha de coerência do Presidente Macron que, desde 2017, defende uma parceria estratégica com a Rússia, mas aparentemente o Presidente Putin não segue o Presidente Macron nessa matéria. A Europa que tem ficado de fora das negociações que decorrem entre os EUA, a Rússia e a Nato a propósito da crise ucraniana… O Presidente Macron falou na necessidade de recuperar o formato Normandia, na mediação entre a Rússia e a Ucrânia, que a Rússia também colocou entre parêntesis, de uma maneira particularmente brutal, no momento em que começou a concentrar forças na fronteira com a Ucrânia. Emmanuel Macron reafirma que com a Alemanha, a França vai procurar um acordo político para uma saída da crise na Ucrânia. Mas não há aqui um contrasenso, esse acordo não deveria ser feito a nível europeu? Não há uma unidade política entre os Estados membros da União Europeia em relação à Rússia e isso impede que haja uma política europeia. Impediu no passado e impede neste momento. A posição da Hungria é muito clara, mas há outras divergências. Há divergências entre a França, a Alemanha e a Suécia. A Suécia está a mobilizar as suas forças armadas para defender posições mais expostas à pressão estratégica da Rússia. Há diferenças entre a França e a Alemanha e os países ditos da linha da frente, Polónia, Roménia e as Repúblicas Bálticas. Não há uma posição europeia comum. É isso que o Presidente Macron propõe quando fala de uma proposta europeia sobre a ordem de segurança europeia para ser apresentada à Rússia. Mas agora, aparentemente, o que a Rússia quer é conversar com os Estados Unidos e com a Nato.   O Presidente francês falou na adesão dos Balcãs ocidentais, uma adesão que precisa de ser reinventada. A França que, no passado, vetou a continuação do alargamento a seis países dos Balcãs. O que é que mudou, o que é que precisa de ser reinventado?  Só mudou a fórmula, agora temos de ter uma perspectiva sincera sobre a adesão. Não há uma data para as conversações se poderem concluir, trata-se de uma fórmula aberta, que é melhor do que um veto. Mas não há uma data para se concluir um processo, que de resto é um processo complexo. O continente africano não foi esquecido. Emmanuel Macron quer construir uma nova aliança com África, um New Deal económico, uma agenda para a Saúde, Educação e Segurança. Que importância tem esta nova aliança?   É tudo necessário. Há também uma proposta para uma cimeira em Fevereiro, vamos ver se ela se pode realizar, tem sido longamente adiada. Há uma agenda de segurança, económica e industrial. Nas relações euro-africanas é preciso construir essa relação, que está a ser minada quer pela penetração russa no domínio da segurança, designadamente no Sahel, onde a França está a retirar  e as forças mercenárias russas estão a começar a intervir. O Mali. Em Moçambique, onde Portugal está empenhado na primeira linha. Há trabalho a fazer, quer no domínio da segurança, quer  no domínio económico, onde a presença chinesa é cada vez mais forte.
    1/19/2022
    9:55
  • Lúcia de Carvalho lança novo disco “Pwanga”
    A cantora franco-angolana Lúcia de Carvalho lançou um novo álbum intitulado “Pwanga” (Luz), que homenageia as suas raízes e a força das mulheres, com ritmos de samba, semba, afrosoul, capoeira, pop latina e sons orientais. Lúcia de Carvalho é, também, uma das artistas convidadas para o festival Au Fil des Voix a 11 Fevereiro, em Paris. RFI: O disco chama-se Pwanga? Porquê? Lúcia de Carvalho: “Pwanga” vem da expressão “Pwanga ni Puy?” em tchokwe. Foi uma amiga minha que viajou para Angola e que costuma acompanhar pessoas para escrever textos para aumentar a auto-estima e ela foi a uma pequena aldeia para fazer um texto desses com agricultores e agricultoras. No fim da viagem, ela quis tirar uma foto e ninguém sorria. Ela perguntou para o tradutor o que poderia dizer para as pessoas sorrirem e ele disse: “Pwanga ni Puy?”. Isso significa “luz ou escuridão?”, “está escuro ou está claro?” e as pessoas sorriam e diziam “Pwanga”. Achei a ideia muito bonita. O primeiro disco chamava-se Kuzola e tinha palavras em quimbundo. Neste álbum, também tem canções em quimbundo. Porquê? As canções em língua tradicional é uma escolha porque eu gostaria de poder falar uma dessas línguas. Para a canção em quimbundo “Saeli” eu pedi a um poeta angolano para traduzir em quimbundo. A canção “Phowo”, que significa “Mulheres”, é a tal canção que foi escrita por mulheres agricultoras. O que conta “Phowo”? Fala do poder das mulheres, da fragilidade. Gostei muito do facto que elas dizem, por exemplo, coisas simples como “Eu trago a água para a minha aldeia. Graças a mim, a Humanidade pode crescer porque eu sou fonte de vida”. Achei muito, muito lindo. Empoderamento feminino é uma das linhas de força deste disco, mas há outras. Por exemplo, em “Yallah”, ouvimos “Fizeram guerras e o amor continua a brilhar”, “a natureza é a nossa riqueza”...  Há outras mensagens fortes que quer passar com este disco… Sim, na realidade, cada título do disco tem uma só palavra e eu acho que a mensagem principal que eu quero passar é realmente a mensagem de unidade. Com o meu precedente trabalho, “Kuzola”, eu sentia realmente que o amor é uma energia que une as pessoas e as coisas. Com “Kuzola”, eu estava numa busca de sentido. Com “Pwanga”, estou mais a querer viver e sentir a essência das coisas, o lado luminoso e o lado sagrado da vida que vive em cada um de nós. Este é um disco bastante luminoso, com ritmos de samba, semba, afrosoul, capoeira, pop, sons orientais… Como é que descreve musicalmente este trabalho? É complicado (risos). Eu tento mesmo seguir a inspiração, não digo que vou fazer um álbum assim e assim. As canções começam com uma vontade de dizer alguma coisa. Elas começam através do texto, só que o texto vem com uma melodia e um certo ritmo. Depois, para mim é só procurar seguir. Para este álbum, estive muitas vezes a perguntar à canção, como se fosse uma pessoa: “Diz-me aí, o que é que tu queres? O que é que eu posso fazer para ficares linda? Quais são os músicos?” Foi por isso que a gente procurou cada músico: o José Luís Nascimento, na percussão; fomos para Lisboa para gravar com o Betinho Feijó, o guitarrista do Bonga, e o Galiano Neto. Nesse álbum, tem também uma participação importante do Edouard Heilbronn. O Edouard que já participou no Kuzola… Sim. No Kuzola, a gente fez os arranjos juntos mas, desta vez, eu estava muito grávida e então foi muito ele que se ocupou dos arranjos, fez as guitarras, os baixos e a gente contou com participações muito legais. Também convidaram o cantor brasileiro Chico César… Quando a gente faz um álbum, a gente fica com vontade de partilhar o nosso trabalho com outros músicos que gostamos e admiramos. O Chico César faz parte dessas personalidades, desses grandes cantores da música brasileira que marcaram muito a nossa geração. A gente enviou várias canções e ele escolheu a canção “Desperta” e eu fiquei muito, muito feliz. Foi muito bom encontrá-lo para o videoclipe, é uma pessoa muito simples, ele está de coração aberto. Foi um encanto. Também canta em português, em castelhano, mas não em francês. Porquê? A inspiração não quer vir em francês. Procurei, pedi, mas nada! Quando falámos pela primeira vez, em 2016, ainda estava a fazer a promoção de “Kuzola”, o seu primeiro disco. Alguns anos passados, como tem sido o percurso – que, entretanto, contou com dois anos de “pausa” para o mundo cultural devido à Covid-19? Não houve realmente pausa porque a gente durante esse momento estava a fazer o álbum. Tivemos sorte porque gravámos todos os instrumentos, as vozes e só faltavam a minha voz e as guitarras. Isso foi em princípios de Março. A gente disse “ah, vamos fazer uma pausa e depois a gente volta”. Só que foi o confinamento. Mas a gente gravou em casa tranquilos, coloquei umas flores, umas velas, umas fotos, foi perfeito. O confinamento parou, começámos logo os concertos e, recentemente, estivemos na Womex, no Porto, e foi uma experiência muito boa. A gente ficou feliz de tocar lá no palco lusófono e tem outras coisas lindas chegando… Precisamente, a 11 de Fevereiro, em Paris, vai subir ao palco do festival Au Fil des Voix. O que representa para si? É uma grande alegria participar neste festival. Já tinha ouvido falar várias vezes, vejo grandes artistas que entram lá. Então, dá para ver que o caminho vai avançando, a gente vai passo a passo e ficamos muito felizes de participar. Há outras datas previstas, por exemplo, em Angola, no Brasil, em Portugal na agenda? Por enquanto ainda não. Na Womex, a gente encontrou programadores, então as coisas estão agendando. Em relação à situação global, está um pouco mais devagar. Tem opções por aí, mas não dá para confirmar enquanto não está assinado… Fale-nos um pouco do seu percurso que já contou um pouco no documentário “Kuzola, o Canto das Raízes” do realizador Hugo Bachelet. Nasceu em Angola, viveu em Portugal, reside actualmente em França… Esse documentário foi e continua a ser uma experiência muito importante na minha vida porque há uns 30 anos que eu não tinha voltado para Angola. Eu nasci lá, aos seis anos fui para Portugal com a minha mãe e as minhas irmãs, onde morei numa Aldeia de Crianças, aos doze anos fui adoptada por uma família francesa. Assim, durante uns 30 anos fiquei cortada totalmente da minha cultura angolana. No momento em que a gente ia fazer o álbum, foi um momento também em que eu senti a necessidade de voltar para a minha terra, sentir as minhas raízes, rever a família e foi aí que a gente cruzou o realizador Hugo Bachelet e fizemos as duas coisas ao mesmo tempo: o álbum e o documentário. Ou seja, nasceu em Angola, cresceu em Portugal, vive em França, tem uma paixão pelo Brasil. Como é que estas múltiplas culturas influenciam a sua música? Influenciam em tudo e totalmente. No começo não foi muito fácil aceitar não ser nem francesa, nem 100% angolana, nem brasileira… Quando eu voltei dessa viagem a Angola, duas semanas depois acordei com uma imagem de uma flor com a raiz angolana, o caule português, a flor brasileira e a França é o chão que permite a essa flor crescer. Essa imagem simples deu-me uma grande harmonia em relação a quem eu me sinto. Eu sou mestiça, a minha identidade, a minha cultura e isso é o que sai na minha música. A minha música transpira quem sou e a evolução. É realmente um álbum foto mas este é com músicas das emoções e das experiências que eu vivi. E é isso que eu gosto de partilhar com o pessoal. Como tem sido a recepção do público. Tem mais feedback de franceses ou lusófonos? É engraçado, eu tenho a impressão que, tanto quando a gente tocou na Itália ou na Alemanha ou aqui na França, a recepção é, de um certo modo, a mesma. As pessoas não entendem, a não ser os lusófonos, e isso reforça a impressão que a música é importante mas, às vezes, tem alguma coisa que vai para além da música. E é isso que eu quero transmitir com o álbum “Pwanga” porque significa Luz, mas como é que a gente vai traduzir a luz?
    1/18/2022
    15:38
  • África e o mundo em “Uma Dança das Florestas” com o Teatro Griot
    Uma reflexão sobre liberdade, independências, países colonizados, poder e natureza, é a proposta lançada pelo Teatro Griot com o espectáculo “Uma Dança das Florestas”, um texto do nigeriano e Nobel da Literatura Wole Soyinka. Antes de os actores subirem ao palco, a RFI falou com Zia Soares, encenadora e directora artística do Teatro Griot. A peça vai estar em cena no Teatro São Luíz, em Lisboa, até 23 de Janeiro. Ficha Técnica: Encenação, Dramaturgia e Outros textos - Zia Soares Texto - Wole Soyinka Tradução - Rita Correia Interpretação - Ana Valentim, Cláudio da Silva, Gio Lourenço, Júlio Mesquita, Matamba Joaquim, Miguel Sermão, Rita Cruz, Vera Cruz Cenário, Figurinos e Design gráfico - Neusa Trovoada Música – Xullaji Design de luz - Jorge Ribeiro Assistência à encenação de movimento - Vânia Doutel Vaz Vídeo (teasers) - António Castelo Produção executiva - Aoaní d’Alva Apoios - Batoto Yetu, Casa da Dança, Junta de Freguesia Misericórdia, Khapaz, Polo Cultural Gaivotas Boavista e KMT – Associação Moreira Team Coprodução: Teatro GRIOT e São Luiz Teatro Municipal
    1/17/2022
    8:03
  • 400 anos depois, Molière continua “muito actual”
    Este sábado, o mundo do teatro celebra os 400 anos do nascimento de Molière. O actor Lionel Cecílio, que interpretou várias personagens molierescas, sublinha que se trata de um dramaturgo “muito actual” e que há textos que parecem ter sido escritos “na semana passada”. De que é feita a imortalidade dos seus textos e o que tornou intemporais as suas personagens? É um autor do século XVII que continua a fazer rir e reflectir. Em 2022, o mundo do teatro celebra os 400 anos do nascimento de Molière e o pontapé de saída começa este sábado, 15 de Janeiro, data de baptismo de Jean-Baptiste Poquelin, que ficou para a história como Molière. O actor Lionel Cecílio, que interpretou várias personagens molierescas, avisa que os textos do dramaturgo seiscentista podem abrir os olhos dos eleitores que vão votar nas presidenciais de Abril em França. De que é feita a imortalidade dos seus textos e o que tornou intemporais as suas personagens? Talvez seja a imersão na própria "natureza humana” através de arquétipos que continuam a encontrar correspondência nas pessoas que somos, vemos, ouvimos e lemos. É, também, certamente, a pertinência do retrato das “lutas de poder entre poderosos e entre classes”. É, ainda, a capacidade de transcrever uma “história social” com uma língua que todos compreendem, directa ou indirectamente, “a língua de Molière”. Estas são algumas das hipóteses levantadas por Lionel Cecílio que trabalhou em três peças de Molière, “Médico à Força”, “As Artimanhas de Scapino”e “O Doente Imaginário”. “É verdade que o texto parece longe de nós porque é um texto em francês clássico, com expressões que já não usamos, mas o fundo do texto é muito actual. É muito actual na maneira de criticar o poder, as personagens de poder - seja um rei na época de Molière ou um Presidente com ares de rei agora nesta V República francesa. Há muitas coisas actuais. Parece que ele escreveu isso na semana passada”, afirma o actor franco-português. Lionel Cecílio recorda que Molière “compreendeu directamente e muito bem o que é a natureza humana” e essa é “a chave de uma escrita que pode ficar no tempo, que pode ficar universal e intemporal” porque o público de qualquer época é “capaz de se identificar com as personagens”. “Ele está a criticar as lutas que há entre os poderosos e os que não têm poder e isso é universal. Ontem era a Igreja e hoje é o capitalismo, mas o nome não tem importância. O que é importante é onde a luta nasce e cresce. É aí que ele percebeu bem a natureza humana, é desse combate universal, intemporal entre os poderosos e o resto.” E se a língua francesa é conhecida como “a língua de Molière” é porque o dramaturgo conseguiu criar obras que “dão a impressão de serem escritas com palavras do povo” e, ao mesmo tempo, “têm a beleza de um texto mais erudito”. “Tens uma peça que critica os poderosos com, na sala de teatro, poderosos sentados ao pé de não poderosos e a rirem ao mesmo tempo da mesma peça. Isso foi o grande talento de Molière”, acrescenta Lionel Cecílio. Oiça aqui a entrevista a Lionel Cecílio, realizada no âmbito de uma série de reportagens que vamos publicar a propósito dos 400 anos do nascimento de Jean-Baptiste Poquelin, universalmente conhecido como Molière.
    1/13/2022
    11:02
  • Crise ucraniana: "uma adesão à NATO não resolve os problemas da Ucrânia"
    Sem surpresas, as negociações ontem em Genebra entre os Estados Unidos e a Rússia sobre a Ucrânia que segundo os ocidentais estaria prestes a ser invadida por Moscovo, não foram marcadas por avanços substanciais, as partes tendo apenas concordado em continuar o diálogo, privilegiando deste modo a via diplomática para resolver o braço-de-ferro mais intenso alguma vez registado entre os dois países desde o fim da Guerra Fria. Apesar da ausência de resultados concretos, o Kremlin qualificou de "positivas" as conversações desta segunda-feira e por seu lado os Estados Unidos falaram de um "diálogo franco e directo", mas a desconfiança continua a predominar. Os americanos afirmam "desejar acreditar" na Rússia quando esta última desmente pretender invadir a Ucrânia, muito embora Washington aponte há semanas que mais de 100 mil soldados russos se encontram concentrados na zona que faz fronteira com a vizinha Ucrânia, no suposto intuito de terminar o processo iniciado em 2014, quando Moscovo anexou a região ucraniana da Crimeia. Os americanos que juntamente com os europeus ameaçam Moscovo com sanções, querem garantias que não lhes foram dadas. Para se retirarem, os russos reclamam por seu lado um compromisso banindo qualquer alargamento da NATO à Ucrânia, uma hipótese encarada como uma ameaça vital aos seus interesses. Até agora ninguém cedeu um milímetro. É neste contexto que amanhã o diálogo prossegue, desta vez em Bruxelas entre a Rússia e a NATO, antes de Moscovo conversar na quinta-feira em Viena com os países que integram a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE). Em entrevista concedida à RFI, Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União​ Europeia, analisou connosco o que está em jogo nestas negociações. RFI: Em que contexto em que se desenrolam estas conversações? Álvaro Vasconcelos: Acho que era bom que tivéssemos noção da gravidade da situação. Cerca de 100 mil soldados russos concentrados na fronteira com a Ucrânia e uma ameaça de invasão da Ucrânia acompanhada de um ultimato no sentido de fazer com que a Ucrânia e a Geórgia nunca possam ser membros da NATO. O que parece que ficou claro no primeiro dia de negociações é que se os Estados Unidos pensam que há outras questões que seriam importantes para a Rússia e que poderiam levar a um acordo sem expor na mesa a questão da NATO, como seja por exemplo um acordo sobre os mísseis intermédios, acordo que foi abandonado por Trump, um acordo sobre as manobras militares nas fronteiras respectivas, isso tudo parece não convencer os russos. Não convence os russos porque o objectivo claro da Rússia é impedir o alargamento da NATO à Ucrânia e à Geórgia. Putin tem uma agenda que é também muito interna, que é a agenda de um líder nacionalista que se apoia cada vez mais nas Forças Armadas e na capacidade de usar a força para galvanizar a população russa e afastá-la das preocupações mais imediatas, seja com a pandemia, seja com os problemas sociais, seja com o atraso económico da Rússia em relação ao ocidente em geral e à Europa em particular. Evidentemente é um factor de mobilização de certos sectores da oposição na Rússia que acham que se tivessem um destino europeu -não digo um destino integrado na União Europeia que está completamente fora de qualquer horizonte - mas um horizonte de integração económica, de relações económicas fortes, tudo isso galvaniza a oposição russa. E Putin, pondo o acento na capacidade de usar as Forças Armadas, como vimos na Síria e como vimos na Ucrânia com a anexação da Crimeia, procura pôr o acento no nacionalismo e tem muito apoio nas Forças Armadas porque esta ideia de que existe uma possível ameaça militar ocidental à Rússia -que evidentemente creio que não existe- já faz parte da estratégia russa para ocupar parte da Ucrânia. A percepção de que existe uma ameaça ocidental é forte em sectores da população russa e todos os analistas militares russos apontam para uma possível ameaça ocidental e a necessidade de se defenderem dessa ameaça. RFI: Isto também acontece numa altura em que a Rússia acaba de intervir no Cazaquistão, dando a entender que pretende guardar a sua zona de influência e uma espécie de 'zona tampão' entre o seu território e os países ocidentais. Álvaro Vasconcelos: Não se trata só de ganhar uma 'zona tampão'. Certamente também quer. Trata-se de reconstruir o império russo. Eu não digo império soviético, porque o império soviético obrigaria a integrar a Polónia, a República Checa etc, só no quadro de uma guerra mundial que não me parece que esteja no cálculo de Putin, embora saibamos por experiência que quando começamos a usar as Forças Armadas na Europa e a pensar que se conquista territórios na Europa facilmente, isto desencadeia processos que podem ser gravíssimos do ponto de vista da paz. A experiência histórica dos anos 30 assim o demonstra e evidentemente a sensação que Putin tem hoje da 'fraqueza ocidental', esta sensação foi reforçada com a retirada americana do Afeganistão, com o facto de os estados europeus não terem credibilidade do ponto de vista militar. Aliás, veja-se que nas negociações entre a Rússia e os Estados Unidos não está presente a Europa que é a principal interessada deste problema e que seria a principal vítima de um conflito militar. A Europa que tem capacidade de pressão sobre a Rússia muito significativa que é toda a questão à volta do gás do Nord Stream, o pipeline que está concluído e que liga a Rússia à Alemanha mas que ainda não está operacional. A dependência em gás da Europa da Rússia é também uma dependência da Rússia em relação à Europa em termos de recursos financeiros. Cerca de 43% do gás que é consumido na Europa vem da Rússia. Portanto, se isto aparentemente dá força à Rússia também é uma fraqueza porque se os europeus estivem disponíveis para incorrerem os custos de cortarem esta fonte de energia, isto teria um impacto enorme na Rússia e certamente se houver uma invasão da Ucrânia, a perspectiva do Nord Stream desaparecerá. A coligação alemã já foi mostrando que isso teria essas consequências. RFI: Relativamente à questão do Nord Stream, os Estados Unidos nunca foram propriamente a favor desse projecto e aliás ameaçaram ainda no passado mês de Dezembro curto-circuitá-lo. Acha que no fundo a crise ucraniana está a servir de pretexto para os Estados Unidos cumprirem esta agenda? Álvaro Vasconcelos: A crise ucraniana torna a questão do Nord Stream um problema importante das negociações, independentemente de os Estados Unidos nunca terem sido favoráveis a este projecto por razões diversas, por um lado certamente razões estratégicas das relações com a Rússia e de quererem aumentar a pressão sobre Moscovo, mas também por razões económicas. No entanto, acho que é óbvio que se houver uma intervenção militar russa na Ucrânia, a questão do Nord Stream estará fortemente posta em causa. E isso é claro certamente para os russos. Aí qual é o balanço que eles farão? O custo económico potencial que virá do funcionamento do Nord Stream e o interesse estratégico nacionalista da Rússia de anexar a Ucrânia ou uma parte desse país. RFI:A Ucrânia está basicamente bloqueada entre os russos e as suas pretensões em termos de segurança e território e, por outro lado, a sua vontade de se virar para o ocidente e aderir à NATO, coisa que os países membros não parecem estar muito dispostos para já a cumprir. Álvaro Vasconcelos: Se nós pensarmos no futuro da Ucrânia, num futuro próspero e democrático, não me parece que a adesão à NATO seja verdadeiramente importante. A adesão à NATO era vista pelos ucranianos como uma forma de dissuasão de uma possível intervenção russa no seu território, questão se tornou mais premente desde a anexação da Crimeia e de parte do leste da Ucrânia. Mas o que é verdadeiramente importante para a Ucrânia é o seu desenvolvimento económico, democrático e político, onde a Ucrânia tem problemas gravíssimos. E aí a perspectiva de uma relação íntima com a União europeia -eu não digo de adesão à União Europeia porque já vimos que os processos de adesão hoje são extremamente difíceis e praticamente impossíveis dado todos os problemas que a União Europeia enfrenta- mas uma associação mais profunda, uma perspectiva a muito longo prazo de adesão, parecem-me uma garantia muito mais sólida de um futuro democrático e estável para a Ucrânia do que o alargamento da NATO para a Ucrânia. Sempre pensei que o alargamento da NATO era uma má ideia, acho que se alimentaria os nacionalistas russos, não serve para nada a não ser para aumentar a tensão, não resolve os problemas essenciais da Ucrânia.Há aqui uma alternativa que é a relação íntima com a União Europeia e a perspectiva, a prazo, de a Ucrânia vir a ser membro da UE. Abrir essa porta e dizer que é por aí que vem a segurança para os ucranianos ao mesmo tempo que os americanos vão negociando a questão das manobras militares, que a NATO aceite que não haja mais mísseis americanos de longo alcance instalados na Europa que possam atingir a Rússia, tudo isso fará parte das negociações. A questão da NATO que fundo é para os russos a questão central porque criaram essa percepção de uma ameaça potencial, a questão hoje é extremamente difícil porque, por um lado possivelmente os europeus gostariam de abandonar essa perspectiva de adesão à NATO da Ucrânia, mas por outro lado ao fazê-lo agora é uma capitulação. Isto é a quadratura do círculo, é extremamente difícil resolver esse problema. RFI: Os Estados Unidos e os russos aceitaram continuar a privilegiar a via diplomática, vai haver também contacto amanhã a nível da NATO e na quinta-feira a nível da OSCE. O que é que se pode esperar desses próximos contactos? Álvaro Vasconcelos: Vamos ver o mesmo. Para já na reunião da NATO, é expectativa dos russos de que a NATO torne claro que está verdadeiramente a pensar na hipótese de abandonar a perspectiva da adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO. Nesse sentido, eles estarão atentos a todos os sinais e continuarão a aumentar a pressão se estes sinais não vierem. E a pressão é a ameaça de invasão. é isto que é extraordinário que nós, no século XXI, cerca de 70 anos depois da segunda guerra mundial, estamos de novo numa situação em que um Estado europeu ameaça de invasão militar outro país. Isso é algo de gravíssimo que nos devia inquietar a todos muito e que devia levar os europeus a pensar também como é que vão no futuro garantir a sua segurança com os Estados Unidos hoje mais preocupados com o Pacífico, com a China. Aliás acho que é um erro americano, neste contexto de tensão enorme do ponto de vista de segurança na Europa, ter vindo a declarar que o seu inimigo actual é a China, rompendo com a política de Nixon que separava a China da Rússia, aproximou a aliança da China com a Rússia, o que também reforça a convicção de Putin de que está numa situação de força na relação com a Europa porque acha que as garantias de segurança americanas abrandaram fortemente, que as preocupações americanas hoje estão no Pacífico e na ameaça da China. Pequim, por seu lado, certamente que vê a aliança com a Rússia como uma forma de fazer pressão sobre os Estados Unidos nas negociações bilaterais e, portanto, desse ponto de vista, acho que as opções da administração Biden foram extremamente prejudiciais à segurança europeia.
    1/11/2022
    13:59

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